Diversidade

Quem são os morcegos?

Morcegos são mamíferos, assim como nós e os ratos. Portanto, morcegos têm pêlos, regulam internamente sua temperatura (“sangue quente”) e amamentam seus filhotes. Os morcegos, os ratos, os cães, os cavalos, as baleias, as onças, os porcos, as focos e nós pertencemos à uma classe de seres vivos chamada Mammalia.

Cada classe é dividida em ordens, sendo que a nossa ordem se chama Primates, onde também se incluem outros primatas, como macacos, micos, sagüís, lêmures e chimpanzés. A ordem dos ratos, cutias, pacas e capivaras chama-se Rodentia, que inclui todos os roedores. Já a ordem dos morcegos se chama Chiroptera, que significa “mãos em forma de asas” (do grego: kheir = mão + pteron = asa). É só lembrar de “quiroprático” e “pterossauro”, palavras com os mesmos radicais linguísticos.

As asas, dentro do grupo dos vertebrados (subfilo Vertebrata), são modificações dos membros anteriores (“braços”). Por isso, aves e morcegos só têm duas asas, enquanto os insetos podem ter quatro.

As asas dos morcegos são únicas, sendo muito diferentes das asas das aves e dos extintos pterossauros. Os morcegos têm cinco dedos em cada mão (como nós), as aves têm três e os pterossauros tinham quatro. Nos morcegos, há uma mebrana (patágio) que se extende desde o corpo e engloba quatro dos cinco dedos, formando a asa. As aves têm a asa formada por penas, que não são vivas como a membrana dos morcegos, podendo ser perdidas sem maiores prejuízo.

Neste GIF animado você pode ver algumas diferenças nos ossos dos braços e mãos, que nós, as aves e os morcegos temos em comum (homologias). Fonte da imagem.
bat encyclopedia britannica
Morcegos apresentam uma enorme variedade de tamanhos, cores e formas. Veja nesta imagem um esquema geral da anatomia dos morcegos, além de algumas das variações nas asas, focinho, orelhas e caudas deles. Fonte da imagem.

Quantos tipos de morcegos há?

A ordem Chiroptera, que contém mais de 1.300 espécies no mundo, tradicionalmente era dividida em duas subordens, Megachiroptera (raposas-voadoras, com apenas 1 família) e Microchiroptera (morcegos propriamente ditos, com 17 famílias). Contudo, estudos filogenéticos mais recentes têm sugerido uma nova classificação com base em relações evolutivas (filogenia). Assim, as raposas-voadoras hoje são classificadas como um subgrupo dentre os demais morcegos.

A hipótese mais aceita atualmente é que os morcegos formam um grupo coeso que veio de um mesmo ancestral comum, isto é, um grupo monofilético. Os morcegos evoluíram dentro da superordem Laurasiatheria, estando relacionados a ungulados, carnívoros, pangolins e cetáceos. Seguindo essa nova hipótese, outros estudos propuseram que a ordem Chiroptera está dividida em duas subordens: Yinpterochiroptera e Yangochiroptera.

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Este é um diagrama (cladograma) das relações evolutivas entre morcegos e outros mamíferos (filogenia). Note que os Yangochiroptera e os Yinpterochiroptera têm um ancestral comum e, juntos, compartilham um ancestral comum com os Fereungulata. Fonte da imagem.
A diversidade de morcegos do mundo retratada em uma gravura do naturalista alemão Ernst Häckel no século XIX.

Quais famílias de morcegos ocorrem no Brasil?

Os morcegos do nosso país são todos Yangochiroptera e pertencem a 8 famílias. O último levantamento oficial dos morcegos do Brasil registrou 178 espécies. Veja abaixo fichas biológicas sobre cada uma dessas famílias, além de fotos de representantes típicos delas.

Emballonuridae – morcegos com sacos nas asas. Família amplamente distribuida nas regiões tropicais e subtropicais do Mundo. Tem a face e os lábios lisos, orelhas unidas no topo da cabeça. Muitas espécies têm glândulas na membrana das asas que fica entre o ombro e as mãos (protopatágio). Sua habilidade de escalar superfícies inclinadas é notável. Costumam habitar fendas de rochas, cavernas, ruínas, casas, árvores e folhagem. Alimentam-se de insetos.

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Saccopteryx bilineata. Foto por Marco A. R. Mello.

Furipteridae – morcegos enfumaçados. Família endêmica da Região Neotropical (mais ou menos equivalente à América Latina). Contém apenas dois gêneros. São semelhantes aos natalídeos: a base das orelhas cobre parcialmente os olhos, as orelhas são em forma de funil, o polegar é pequeno e às vezes contido na membrana, as pernas são compridas e os pés curtos, a cauda é longa e não perfura o uropatágio, os dedos III e IV do pé são unidos; as fêmeas possuem um par de tetas abdominais. Alimentam-se de insetos.

Furipterus horrens (Arthur Setsuo Tahara)
Furipterus horrens. Foto por Arthur Setsuo Tahara.

Molossidae – morcegos de cauda-livre. Contém dezenas de gêneros. Cosmopolitas, distribuem-se pelo mundo todo, habitando principalmente as regiões tropicais e subtropicais. A cauda ultrapassa o uropatágio, razão do apelido da família. A asa é curta e estreita, adaptada para alta manobrabilidade, como nas andorinhas. O pelo é curto e com textura de veludo, sendo que Cheiromeles parece não ter pelos. Algumas espécies tem cristas de pelos no topo da cabeça, como em Chaerophon. Alguns gêneros, como Tadarida e Nyctinomops, possuem lábios franjados. As orelhas são pequenas em comparação às de outros morcegos. Assim como os vespertilionídeos, costumam habitar cavernas e ambientes similares, também sendo freqüentemente encontrados em forros de telhado. Alimentam-se de insetos.

Molossus molossus
Molossus molossus. Foto por Marco A. R. Mello.

Moormopidae – morcegos cara-de-fantasma. Contém apenas dois gêneros. Esses morcegos estão endêmicos da Região Neotropical, distribuindo-se do Sul do Arizona ao Brasil. Seus lábios são expandidos e ornamentados com várias dobras, formando um “funil” para a boca. Em algumas espécies, as membranas das asas de encontram nas costas, dando uma aparência “pelada”. A cauda está presente em todos os membros da família. Possuem especializações para reduzir o peso das asas, permitindo um vôo mais rápido e com maior manobrabilidade. Costumam utilizar cavernas como refúgios, às vezes formando colônias muito numerosas. Alimentam-se de insetos.

Pteronotus parnellii (Fazenda Dimona - Amazonia) (Marco Mello)
Pteronotus parnellii. Foto por Marco A. R. Mello.

Natalidae – morcegos com orelha de funil. Família endêmica da Região Neotropical. Contém apenas um gênero. Possuem corpo esguio, topo da cabeça alto em relação ao focinho, rabo comprido e totalmente contido no uropatágio, orelha em forma de funil, olhos pequenos e os machos têm o “órgão natalídeo” na face (com função glandular e sensorial). Alimentam-se de insetos.

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Natalus stramineus. Foto por Bruce Thomson.

Noctilionidae – morcegos-pescadores (devido ao hábito alimentar) ou morcegos-buldogue (devido à aparência). Família endêmica da Região Neotropical. Possui apenas um único gênero com duas espécies: Noctilio leporinus (grande) e Noctilio albiventris (pequeno). Os lábios superiores de dividem em uma dobra vertical, formando um “lábio leporino”. Utilizam como refúgios cavernas, ocos de árvores e às vezes construções humanas, especialmente pontes. As patas traseiras de N. leporinus são muito desenvolvidas, especialização que o ajuda nas “pescarias”, já que ele costuma capturar peixes cravando suas garras neles. Ambas as espécies comem insetos, sendo que apenas N. leporinus inclui o hábito piscívoro. A ecolocalização é muito apurada em ambas as espécies, sendo que o sonar dos morcegos-pescadores têm grande flexibilidade para se adaptar a diferentes tarefas, como capturar presas voadoras ou presas sob a superfície da água. Apenas outros dois gêneros de morcegos consomem peixes, Myotis e Megaderma.

Noctilio albiventris
Noctilio albiventris. Foto por Marco A. R. Mello.

Phyllostomidae – os morcegos com folha nasal (do grego: phyllo = folha + stoma = boca). Família endêmica da Região Neotropical. Contém dezenas de gêneros e representa a maioria dos morcegos do Brasil. Sua característica mais evidente é a presença de um apêndice carnoso na extremidade do focinho, chamado “folha nasal”, que ajuda a focalizar os ultrassons emitidos pelas narinas (sistema de ecolocalização). Nela encontram-se todos os tipos de hábitos alimentares de morcegos, inclusive os mutualismos com plantas. Dentre as suas particularidades, pode-se citar a visão bem desenvolvida. Inclui os morcegos-vampiros (subfamília Desmodontinae).

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Lophostoma brasiliense. Foto por Marco A. R. Mello.

Thyropteridae – morcegos com ventosas. Família endêmica da Região Neotropical. Contém apenas um gênero, Thyroptera. A característica mais marcante da família é a presença de ventosas nas mãos e pés, que são utilizadas para adesão à superfícies dos abrigos, normalmente folhas novas de Heliconia enroladas em funil. Assim como nos furipterídeos, os dedos III e IV do pé são unidos; orelhas em forma de funil e trago presente. Alimentam-se de insetos.

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Thyroptera tricolor. Foto por Ralph Simon.

Vespertilionidae – morcegos vespertinos. É a maior e mais cosmopolita família de morcegos, ocorrendo no mundo todo, exceto pelos polos. Contém dezenas de gêneros e é a família mais diversificada do mundo. Têm cauda longa que se extende até o limite do uropatágio, formando um V; não possuem folha nasal ou estruturas faciais complexas; as orelhas são pequenas; alguns gêneros têm narinas tubulares; a coloração varia muito entre as espécies. Costumam refugiar-se em cavernas ou estruturas humanas similares, sendo uma das principais famílias a ocuparem forros de telhado no sudeste do Brasil e em vários locais do Mundo. Podem formar desde grupos pequenos até colônias com milhares de indivíduos. Em geral são insetívoros, mas Myotis vivesi consome também peixes e Antrozous palidus inclui lagartos em sua dieta.

Eptesicus brasiliensis
Eptesicus brasiliensis. Foto por Marco. A. R. Mello.
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